A Conferência do Clima de Copenhague
Por Mauricio R. de Souza
Em 19 de dezembro deste ano terminou a tão badalada cúpula do clima de Copenhague. Reunindo 192 países e um número impressionante de participantes entre governantes, Organizações Não-Governamentais e empresários, esta cúpula promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas) mobilizou a atenção da comunidade internacional e de toda a mídia. Parecia para os olhos de muitos que finalmente o mundo inteiro havia enfim concordado em agir de forma efetiva para tentar conter o aquecimento global que tantas catástrofes promete causar.
Do lado de fora da cúpula, manifestantes organizam grandes passeatas e diversos atos de protesto para pressionar os dirigentes governamentais a fecharem um acordo ambicioso que consiga dar esperanças de contenção da escalada crescente de aquecimento atmosférico.
Mas afinal de contas, o que essa cúpula produziu de concreto? Infelizmente muito pouco, ou quase nada. Apenas um documento vago que nem sequer foi aceito por todos os países, sendo somente um anexo do que foi discutido. E olha que essa discussão vem se arrastando por vários anos. Tudo começou em 1992, na chamada Eco-92, realizada no Rio de Janeiro. Mais a frente, em 1997 foi organizado o Protocolo de Kyoto, que tentava estabelecer metas para a redução da emissão dos gases que provocam o efeito estufa (que causa o aquecimento global). Mas o acordo acabou naufragando. Os países desenvolvidos, principalmente EUA, União Européia e Japão, são os que mais contribuíram no passado e no presente para o aquecimento global. Portanto, argumentavam os chamados países emergentes, como China, Índia, Brasil, Rússia, África do Sul entre outros, deveriam ser os países desenvolvidos os que deveriam arcar com metas mais ambiciosas. Por outro lado, os países desenvolvidos exigiam que os emergentes também apresentassem metas satisfatórias, alegando que esses países vinham se transformando cada vez mais em poluidores de grande porte, e que em pouco tempo ultrapassariam o número de emissões dos países capitalistas mais avançados (tanto é assim que hoje a China ultrapassou os EUA e se transformou no maior emissor de gases causadores do efeito estufa). Porém os dirigentes das nações emergentes contra-argumentavam que deveriam ter metas bem diferenciadas, pois senão a desigualdade de riquezas entre as nações poderia ficar congelada, ou seja, se os países ricos cresceram a custa de muita poluição, porque agora os mais pobres estariam impedidos de trilhar também o tão almejado caminho do desenvolvimento. Daí a idéia de terem metas muito mais suaves.
No final nada feito, e para piorar os Estados Unidos do governo George Bush se retira do tratado alegando que o acordo poderia atrapalhar o desenvolvimento da economia norte-americana.
No meio de toda essa discussão, os cientistas apontam a necessidade urgente de se tomarem medidas eficazes, até porque, segundo muitos estudiosos, as conseqüências negativas do aquecimento global já estariam ocorrendo. Uma onda de calor na Europa há alguns anos atrás levou várias pessoas à morte, enchentes cada vez mais catastróficas ocorrem em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, que passa a registrar número crescente de tornados, principalmente no Sul.
No entanto, o forte lobby das indústrias poluidoras pressiona governantes e parlamentares pelo mundo afora para que quase nada seja feito. Esse lobby se baseia na teoria do negacionismo, ou seja, negam que a poluição que provocam estaria contribuindo para as catástrofes ambientais.
É verdade que o aquecimento global não é obra pura e exclusivamente dos seres humanos. Há milênios que o planeta vem passando por um processo continuo de aquecimento. Porém, rigorosos estudos indicam que a humanidade tem intensificado fortemente esse processo, que vem apresentando aceleração mais acentuada a partir do final do século XVIII, enfim com a Revolução Industrial e o avanço do capitalismo internacionalmente.
Os cientistas também não podem precisar exatamente quando as catástrofes mais trágicas irão ocorrer, mais afirmam que se nada não for feito, certamente ela virá. Como o tema ganhou enorme repercussão internacional e mobilizou pessoas pelo mundo afora, a cúpula da ONU sobre mudança climática realizada em Copenhague se transformou na grande perspectiva de tomadas de atitudes. Mas isso para aqueles que não prestavam atenção ao que ocorria nos bastidores. Governantes sem apoio em seus parlamentos, discursos sem propostas objetivas e lobby’s poderosos das indústrias poluidoras davam o tom do que se transformaria a cúpula – um fiasco.
No fim um documento vago, sem aceitação geral, onde os países ficam liberados para seguir metas, reformulá-las ou até mesmo abandoná-las. De mais substancial somente o compromisso dos países desenvolvidos de repassar 30 bilhões de dólares para os países pobres entre 2010 e 2012, aumentando esse valor para 100 bilhões por ano até 2020, em forma de financiamento.
Uma nova cúpula também ficou acertada para dezembro de 2010, na Cidade do México. Será se alguma coisa poderá mudar no rumo das negociações até lá?
O mais curioso de tudo isso é que muita gente critica o sistema da ONU, considerado por muitos o grande culpado. Isso porque, as decisões devem ser tomadas por consenso, daí que todo o resultado tende a se encaixar num mínimo denominador comum. Mas será que seria realmente esta a questão central? No meu entender parece que não. Falta é vontade política. Basta lembrarmos o que aconteceu recentemente com a crise econômica que teve o seu início nos EUA através de uma crise financeira que em pouco tempo deu origem a uma crise econômica geral, afetando o mundo inteiro. O que os governos fizeram? Ficaram discutindo, analisando, embromando e não chegando a lugar algum? Não, fizeram muito diferente disso. Numa velocidade recorde, governos do mundo inteiro se articularam e tomaram decisões efetivas. Nunca em toda a história se viu tamanha montanha de dinheiro que os governos conseguiram mobilizar para salvar grandes bancos e enormes conglomerados empresariais da crise. Tanto que essa crise, a mais grave da história depois da crise econômica de 1929, foi suavizada e controlada num tempo bem menor do que todos esperavam. Só que nesse caso, diferentemente das preocupações em relação as mudanças climáticas, houve vontade política, principalmente em salvar o patrimônio dos ricos.
O modo de produção capitalista tem sido o grande culpado pela degradação ambiental, não só do clima, mas da natureza como um todo. Porém, os desastres ambientais esperados, caso nada seja feito, apesar de afetarem mais as pessoas pobres e desassistidas, também causarão enormes prejuízos na economia global. A agricultura, principalmente, será a mais afetada (prejudicando mais as nações pobres, que tem na agricultura a sua principal base econômica), mas todos os ramos sofrerão conseqüências, uns mais outros menos, mas todos. Só que atualmente a ganância capitalista tem falado mais alto.
Logo após o fim da Conferência de Copenhague, o senador Cristovam Buarque (PDT) fez um pronunciamento sincero e preocupante: segundo ele, como as piores consequências serão sentidas daqui a 15 anos, que candidato iria dizer para que as pessoas reduzissem o consumo, não usassem carros, para que a economia não crescesse? Quem o fizesse, não ganharia um voto. E os políticos não pensam a longo prazo, só no curto prazo.
ResponderExcluirEu digo que se nossos ancestrais pensassem a médio e longo prazo, não passaríamos o sufoco que estamos passando agora; e, se não pensarmos a médio e longo prazo, nossos descendentes não cometerão erros porque não existirão para cometê-los.
O fato é que o modelo capitalista não apenas produz miséria como degrada o planeta. Só com a sua destruição poderemos salvar o planeta. Devemos isso às futuras gerações.