A história da República brasileira é caracterizada no aspecto político pelo domínio de poucos grupos no poder e pela falta de espaço para as decisões populares, e no aspecto econômico pelo grande desenvolvimento industrial e modernização da economia. Nesse período, o Brasil deixou de ser um país agrário e de pouca produção manufatureira, para se transformar na nação com o parque industrial mais avançado da América Latina.
No aspecto político até que ocorreram alguns avanços. No entanto, os mesmos foram muito tímidos e cheios de retrocessos no meio do caminho no tocante às questões democráticas. Mas para avaliarmos esses dois aspectos (o econômico e o político), precisamos fazer um balanço da nossa história republicana desde o seu início. Então vamos lá.
Com a proclamação da república, o Brasil finalmente deixava de ser a única monarquia das Américas. Isso porque, diferentemente dos outros países americanos, o processo de independência brasileira foi marcado pela baixa participação popular e pela adoção do sistema monárquico no lugar do sistema republicano. Assim, enquanto na Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador, Colômbia e outros, é comum vermos nas praças e monumentos gravados os nomes Simon Bolivar e San Martin (líderes sul-americanos dos movimentos de independência), no Brasil o processo de emancipação política de Portugal se deu justamente com o filho do rei português, dom Pedro I. Mas porque as elites brasileiras aceitaram que o poder ficasse nas mãos de um alto membro da monarquia portuguesa, futuro rei de Portugal? As nossas elites confiavam plenamente nele? Por que não defenderam que o poder ficasse nas mãos de algum brasileiro?
Um dos principais motivos que respondem as perguntas acima diz respeito aquilo que caracterizava a sociedade brasileira da época: o seu sistema escravocrata. Nenhuma outra colônia era tão dependente da mão-de-obra escrava quanto a brasileira. Isso acabava gerando um imenso temor nas elites coloniais de que revoltas negras pudessem lhes causar sérios problemas. Portanto, o medo das elites coloniais era de que a disputa pelo poder no Brasil após a independência levasse a uma guerra civil, o que poderia facilitar as rebeliões escravas, deixando os senhores de escravos desprotegidos pela ação governamental.
Assim surgia D. Pedro como alternativa, pois aliava as suas ambições pessoais de poder com os interesses das elites locais que desejavam uma transição com ordem. Não foi à toa que a principal base política de poder do império (tanto o primeiro quanto o segundo) esteve alicerçada no apoio dos donos de escravos.
No final do século XIX, com o Império desgastado e com uma sociedade em transformação, onde a mão-de-obra escrava vinha sendo substituída cada vez mais por outras formas de relações de trabalho (destacando-se a forte presença do imigrante estrangeiro nas atividades produtivas), o Brasil deixa de ser o único país das Américas a manter o trabalho escravo através da Lei Áurea de 1888. Acabava o pouco sustentáculo de apoio que o governo imperial vinha tendo, ou seja, de alguns fazendeiros (principalmente da região do Vale do Paraíba) que ainda insistiam em manter o método tradicional de utilização do trabalho escravo. Sem apoio, o Império caía de podre.
Vem a República, iniciando-se o período conhecido como Repúbica das Espadas. O motivo está ligado ao fato dos dois primeiros mandatários do poder serem militares: o marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891) e o marechal Floriano Peixoto (1891-1894).
Após um período inicial muito conturbado e com os republicanos ainda receosos de uma possível volta da monarquia, o poder é transferido para um civil: o paulista Prudente de Morais. O novo presidente era representante das oligarquias cafeeiras paulistas. A partir de então, o poder no Brasil seria controlado e administrado de acordo com os interesses das oligarquias rurais.
Das oligarquias brasileiras as mais fortes eram as de São Paulo e Minas Gerais. O motivo está no fato de serem estas oligarquias as maiores produtoras de café do Brasil e do mundo. E era justamente o café o principal produto na pauta de exportação brasileira. Num país em que a economia era sustentada pelas atividades agrícolas, o café acabava sendo a principal fonte de divisas nacional. Isso fazia com que as oligarquias cafeeiras se destacassem economicamente e politicamente.
Porém as outras oligarquias estaduais não ficaram de fora do jogo político. Com o presidente Campos Salles (que governou de 1898 a 1902), o processo ficou acertado mais ou menos assim: como as oligarquias mais fortes eram as paulistas e mineiras, o mecanismo de escolha dos presidentes da República se daria através de um revezamento, ou seja, se num mandato assumisse um presidente paulista, no outro deveria assumir um mineiro, e assim sucessivamente. E como eles seriam eleitos? Teoricamente pelo voto do povo. Porém, na prática o voto era controlado pelos chamados coronéis, que na verdade não eram militares de patentes, mas sim os fazendeiros mais influentes de cada região. Como o Brasil era um país ainda agrário, a maior parte das pessoas moravam no campo e dependiam da agricultura para viver. E a concentração de terras era (ainda é) muito grande. Poucas famílias controlavam a maior parte das terras de cada região. A maioria do povo acabava sendo dependente e explorada por esses poucos latifundiários.
Mas qual era a vantagem dos coronéis ao garantirem os votos necessários para elegerem os governadores (na época chamados presidentes de Estado) e os presidentes? Para os coronéis a vantagem estava nos favores que recebiam em troca dos votos. Muitos desses coronéis inclusive não eram nem homens ricos financeiramente, mas por possuírem enormes terras, acabavam tendo uma grande quantidade de pessoas sobre sua influência. Assim, os coronéis através de seus "currais eleitorais", ou seja, os homens pobres do interior (que votavam nos candidatos desses poderosos locais em troca de pequenos favores como uma cesta de alimentos, a promessa de um emprego, remédios entre outros, ou até mesmo de ameaças) negociavam com as oligarquias mais fortes de cada estado os favores que receberiam em troca dos votos que lhes garantiam. Estas oligarquias, por sua vez, também negociavam favores com o governo federal. E quais favores eram esses que os coronéis recebiam? Eram favores como cargos públicos, direito a indicações políticas, obras que favoreciam os interesses dos poderosos e etc, mas tudo através de verba pública.
Assim, não dá para falarmos em democracia nesse período. Além da imensa maioria dos brasileiros não terem direito à voto, como era o caso dos analfabetos (que representavam mais da metade da população), das mulheres, dos menores de 21 anos, dos padres e soldados, ainda sim, a minoria que votava era em grande parte controlada pelos poderosos locais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário